Vamos Falar De Insatiable

agosto 16, 2018


Não costumo seguir massas, seja a coisa boa ou não. Geralmente espero a hype passar para, finalmente, dar oportunidade ao que estava com todos os holofotes voltados para si. Todavia, abro exceções quando envolve polêmica e comoção por parte da sociedade (seja pelas pessoas que passam/passaram pelas situações expostas ou simplesmente por aqueles que simpatizam com a causa e militam em conjunto). Não tinha pretensões de assistir Insatiable, mas diante das acusações que vêm sofrendo, pulei alguns episódios de séries que acompanho para começar esta. Vamos às minhas considerações. Contém spoilers.

A série possui dois plots que se desenvolvem paralelamente, e se entrelaçam a partir dos dois protagonistas: um ex-advogado que se tornou preparador de concursos de beleza e uma adolescente obesa que sofre bullying na escola e, após uma reviravolta, retorna das férias com o padrão de beleza "ideal": magra e sedutora. Uma temática que, à primeira vista, nos passa uma mensagem de superação. No entanto, meus caros, logo a partir do primeiro episódio já é descarregada uma carreta de clichês preconceituosos que tentaram minimizar com as doses de humor que permeiam a série. #shame  E só eu vi o título com duplo sentido? Insaciável... De comida ou de vingança? Ou os dois? Fica aí o questionamento.

Segundo a criadora, Lauren Gussis, Insatiable foi inspirada numa experiência pessoal. Até aí, tudo bem. Quem sempre lutou contra a balança sabe quão cruel a vida pode ser por conta de humilhações recorrentes devido ao peso "fora dos padrões". Eu mesma passei por diversas depois que engordei 30kg (inclusive recentemente, depois já ter emagrecido cerca de 18kg amamentando), pois fui uma adolescente magra por conta do período em que fui bailarina. Entretanto, o primeiro erro da série - e das pessoas em geral - é usar o esteriótipo "é gorda porque come descontroladamente". Ou seja, para essa gente a via de regra é que parar de comer = emagrecer. Quem dera fosse fácil assim, não é? Aí quem sofre por ser magro demais resolveria a situação rapidinho comendo bastante, hum? #sqn

Ninguém nasce desejando ter o IMC acima do ideal (nem abaixo), biologicamente falando. Distúrbios hormonais, fatores genéticos, transtornos alimentares e doenças psicológicas NUNCA são considerados quando alguém aponta o dedo para uma pessoa acima do peso, nem quando perguntam por que ela engordou tanto ou "por que não emagrece?". Apenas fazem piadas, dão apelidos, humilham... Insatiable poderia abordar a obesidade de Patty de uma maneira mais delicada, e tudo o que fizeram foram colocar rosquinhas e chocolates na boca da guria e fim. O único porquê era o fato dela gostar de comer. Quem não gosta, gente? Quer dizer... Eu pesei entre 49 e 53kg até meus 20 anos e depois engordei 30kg porque um dia acordei e comi toda a comida do mundo. Sério?

Uma série de fatores corrobora para ser/estar gordo e uma pessoa que usou a própria experiência ruim fazer piada com o que a magoava a torna uma vencedora? Um exemplo? Sim, sigamos em frente após superamos nossos problemas, mas tenhamos noção que milhares de jovens não conseguem ou não conseguiram ainda. Sofrem, choram, tiram suas vidas e uma série dessas trata com tanta irresponsabilidade um tema tão delicado. Patty poderia ser um exemplo de luta e força de vontade, mas é retratada de forma errônea... É fútil, vingativa e comete barbaridades. Não sejamos puritanos, todos já fizemos besteiras, mas na atualidade, num mundo virado de ponta à cabeça, onde pessoas não têm mais compaixão pelas outras, aplaudir esse tipo de desserviço é absurdo e revoltante. 

Patty não é exemplo, não é engraçada, é irresponsável e não é apenas isso! Bob até poderia salvar a série, mostrando como se tornou realizado assessorando garotas em concursos, transformando-as em cisnes, elevando a autoestima. Todavia, ele não passa de uma mentira. Insatisfeito consigo mesmo, com seu corpo, tem uma "invejinha" do vizinho sarado e perfeitão e só vê Patty como uma alavanca para sua carreira, que foi destruída - injustamente - depois de ser acusado de assediar uma menor. Felizmente, Bob não é um pedófilo. Ufa! Mas... A mulher que acusa o cara de assediar a filha dela mantém uma relação (inclusive, sexual) com o filho do próprio Bob. Ah, mas garotos podem "pegar" mulhereres mais velhas sim... NÃO!  Também é crime!

Não bastasse tudo isso, vamos sacanear a amiga "sapata" (palavra da tradução, não minha) de Patty também. Trejeitos masculinos, corte de cabelo duvidoso, amor platônico pela melhor amiga... Mais esteriótipos. E que tal adicionar o cara que luta contra o alcoolismo - porque ele frequenta um AA, certo?- se encachaçar com uma "novinha" no Motel? Ou decidir transar com um desconhecido para se vingar? Chega!   Essa série não vale seu tempo, não adiciona nada ao seu intelecto e não vale nem para diversão. Passaria o mês inteiro apontando as merdas que ela ensina a uma juventude que sim, sejamos realistas, já está problemática o suficiente. Assim como não indico livros com conteúdo inútil, como mãe, leitora e consumidora/telespectadora, não indico a série também. Se quiser assistir, e gostar, direito seu.

Insatiable merece a polêmica que causou.
Bola fora da Netflix.
Abraços.

Postagens Relacionadas

instagram

Google+ Followers

pinterest